“O Benzoato de emamectina não tem registro no Brasil. Por um equívoco de avaliação, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) considerou o princípio ativo como sendo neurotóxico”. A afirmação é do Dr. Angelo Zanaga Trapé, é coordenador da Área de Saúde Ambiental da FCM/Unicamp e membro do Conselho Científico para a Agricultura Sustentável (CCAS).
Segundo o especialista, a substância “só é nociva a uma determinada espécie de animais de experimentação. Ou seja: um tipo específico de rato de laboratório que não produz um tipo de proteína, P1. Esta proteína protege membranas e em especial as que compõe a barreira hematoencefálica – e possibilitam a passagem de substâncias tóxicas. Em seres humanos, na 28ª semana de gestação os fetos já tem as membranas completas com os níveis adequados de proteína P1, que impedem a passagem deste princípio ativo”.
“O ano de 2015 ficará na história do conhecimento científico e tecnológico. O Prêmio Nobel de Medicina foi concedido aos pesquisadores (Willian Campbell, da Drew University de New Jersey, USA; e Satoshi Omura, da Kitasaka University de Toquio, Japão) que conseguiram sintetizar Ivermectina – substância de fundamental importância no combate de duas das doenças que atingem as populações mais pobres em todo o mundo: a oncocercose, conhecida como cegueira dos rios, e a filariose, doença dos vasos linfáticos que evoluem para a elefantíase dos membros inferiores e genitais”, conta ele.
O professor explica que a Ivermectina é “do grupo das Amamectinas, assim como a Abamectina e a Emamectina, que vem se tornando conhecida, inclusive entre leigos, pela sua eficiência no combate à uma das pragas agrícolas mais vorazes e recentes no Brasil, a Helicoverpa Armigera, lagarta que causou prejuízos de pelo menos R$ 2 bilhões ao destruir plantações de feijão, milho, algodão e soja em diversos estados do País”.
“O Benzoato de Emamectina tem registro em 77 países, incluindo Estados Unidos, Austrália, Japão e Comunidade Europeia. A aprovação se deu em países de clima tropical, caso da Índia. Sua utilização é extensa em diversas culturas, de alimentos e não-alimentares. Estamos falando de uma substância que está no mercado de quase cem países tanto como fármaco, quanto como substância de uso veterinário e, ainda, na agricultura”, lembra ele.
De acordo com o membro do CCAS, “não há registros reconhecidos cientificamente no Brasil e em outros países, de impactos na saúde de qualquer grupo de trabalhadores ou de consumidores mesmo após o uso dessas substâncias durante décadas. Produtos comerciais desenvolvidos desses princípios ativos não determinam nenhum impacto social – ao contrário, melhoram a qualidade de vida da população”.
“O Prêmio Nobel de Medicina deste ano ao mesmo tempo reconhece o papel dos avanços do conhecimento em Toxicologia e do progresso tecnológico, capazes de sintetizar em laboratório uma substância que traz enorme benefício para a saúde pública mundial. De modo especial, é uma homenagem à relevância da Ciência, no caso a Química. Além disso, é uma boa oportunidade para que as autoridades regulatórias do Brasil, um país produtor de alimentos, reconheçam o papel da ciência de modo a criar um ambiente mais favorável à pesquisa. Só assim, conseguiremos cumprir o desafio de alimentar cerca de 9,3 bilhões de pessoas que habitarão o planeta no ano de 2050”, conclui.